Zuenir Ventura - Jornal O Globo - 19/02/2014. (Série 50 anos do GOLPE MILITAR)
Episódios desonrosos cuja memória dos militares tentam
apagar voltam à tona, como tem acontecido ultimamente.
Por meio de um mecanismo interior
conhecido como “retorno do recalcado”, a psicanálise explica que não adianta
reprimir as lembranças dos traumas antigos: um dia elas ressurgem, e com mais
força. O passado sempre bate à porta. Isso acontece na esfera individual, mas
também no plano da história coletiva. Por exemplo, episódios desonrosos cuja
memória os militares tentam apagar voltam à tona, como tem acontecido
ultimamente. Ora por meio da confissão espontânea de um culpado perseguido pela
consciência. Ora pela revelação através de uma reconstituição jornalística. Ora
por uma exposição retrospectiva ou uma descoberta feita por investigação
policial.
O mais recente “retorno” tem a
ver com um dos casos mais nebulosos do regime militar: a bomba que explodiu por
acidente no colo de um sargento que a conduzia, junto com um tenente, para ser
lançada no Riocentro durante um show com 20 mil espectadores, em 1981. O
atentado seria atribuído a “grupos subversivos” e visava a interromper o
processo de abertura política. A versão oficial apresentou logo os dois
militares como vítimas, não como autores frustrados do atentado (o sargento
morreu na hora e o tenente saiu ferido e, depois, foi promovido).
Na edição de domingo, os
repórteres Chico Otávio e Juliana Castro revelaram que o Ministério Público
Federal desmascarou a farsa e está denunciando um ex-delegado e cinco militares
reformados, entre os quais três generais (para um deles está sendo pedida pena
de 36 anos de prisão). Uma das provas inéditas é o depoimento do major Divany
Barros, que contou ter ido ao local da explosão para sumir com os indícios da
participação dos seus colegas.
O ex-delegado é Claudio Guerra, o
mesmo que em 2012, no livro “Memórias de uma guerra suja”, de Marcelo Netto e
Rogério Medeiros, confessou ter incinerado 11 corpos de militantes numa usina
de cana-de-açúcar. Em outro capítulo dessa sinistra série, o coronel reformado
Raymundo Ronaldo Campos admitiu para a Comissão da Verdade ter participado do
que chamou de “teatro montado” para mascarar a execução do então deputado
federal Rubens Paiva.
A versão das Forças Armadas, de
que ele fora sequestrado por guerrilheiros, é mantida, apesar de desmentida por
outro personagem do “teatro”, o tenente-médico Amílcar Lobo, que em 1971
atendeu Paiva no DOI-Codi, onde servia. O médico afirmou que o paciente morreu
em consequência de torturas sofridas na prisão. Se não bastasse, em 2013, a
viúva de Lobo, Maria Helena Gomes de Souza, compareceu àquela mesma Comissão
para informar que, pouco antes de morrer, o marido a encarregara de, em seu
nome, pedir perdão aos torturados que ele atendeu.
O mais patético nesse inútil
esforço de sustentar as farsas é que elas estão sendo desmoralizadas não mais
pelas vítimas, mas pelos próprios algozes.
Capítulo triste da nossa história, que precisa ser divulgada para que os jovens de hoje não caiam no lerolero da "Volta a ditadura", "dominação comunista".
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