"Os proprietários das empresas de transporte de carga agradecem (...). Se a greve
obtiver sucesso, eles continuarão superexplorando os motoristas
autônomos, impondo-lhes, não apenas o pagamento de baixos valores pelos
fretes, mas, ainda, exigindo que eles se submetam a jornadas de trabalho
absurdas."
Nota do Blog: Quando lemos o editorial que reproduzimos abaixo, foi impossível não relacionar a uma entrevista de hoje, no Jornal Nacional, dada por um empresário do ramo de transportes local, falando a favor da greve como se fosse um "peão" do transporte.
Nota do Blog: Quando lemos o editorial que reproduzimos abaixo, foi impossível não relacionar a uma entrevista de hoje, no Jornal Nacional, dada por um empresário do ramo de transportes local, falando a favor da greve como se fosse um "peão" do transporte.
(Editorial do Jornal Sul 21)
A greve dos caminhoneiros, deflagrada na quarta feira (25) e
que já diminuiu um cerca de 40% o abastecimento de mercadorias em todo o
país, é uma greve emblemática. Realizada como forma de pressionar o
governo para retirar a proposta de regulamentação da atividade dos
caminhoneiros autônomos, aprovada em 1997 e que agora entra em vigor, a
greve atual é um caso exemplar de como um movimento de trabalhadores
pode, se conduzido por lideranças hábeis e ao mesmo tempo tendenciosas,
se contrapor aos interesses da própria categoria e do conjunto da
sociedade.
Contando com a adesão de 80% dos caminhoneiros autônomos, segundo o
comando do Movimento Brasil Caminhoneiro, que deflagrou a greve e a
dirige, os motivos da paralisação são a instituição do cartão-frete,
para o pagamento dos serviços realizados, e a obrigatoriedade do
respeito a uma jornada diária de trabalho de, no máximo 13 horas, com
paradas de 30 minutos a cada quatro horas e um repouso de 11 horas até o
início da jornada seguinte.
A liderança do movimento afirma que o cartão-frete impedirá que os
motoristas autônomos recebam pagamento em dinheiro pelo trabalho
realizado e que eles não terão onde repousar durante os 30 minutos de
descanso obrigatório e nem durante as 11 horas de intervalo de jornada,
já que não foram construídos abrigos e áreas de lazer ao longo das
rodovias. A se crer no que afirmam as lideranças, os motoristas
autônomos preferem correr os riscos de serem assaltados e roubados das
quantias que recebem como pagamento de cada frete que realizam e
preferem, ao mesmo tempo, continuar trabalhando 12, 14, 20, 24 ou mais
horas seguidas, sem descanso regular até que hospedarias e centros de
lazer sejam construídos para recebê-los.
Os proprietários das empresas de transporte de carga agradecem. Se a
greve obtiver sucesso, eles continuarão podendo sonegar os valores pagos
pelos fretes, pois continuará existindo o mesmo sistema falho de
controle fiscal dos pagamentos efetivamente realizados. Se a greve
obtiver sucesso, eles continuarão superexplorando os motoristas
autônomos, impondo-lhes, não apenas o pagamento de baixos valores pelos
fretes, mas, ainda, exigindo que eles se submetam a jornadas de trabalho
absurdas. Suas empresas continuarão, com isto, obtendo lucros
crescentes, mesmo que, para isto, tenham que submeter os motoristas
autônomos e todos os que trafegam pelas rodovias brasileiras aos riscos
de acidentes provocados por condutores insones e exaustos.
Onde repousam hoje os motoristas autônomos quando param? Será cabível
se imaginar que todos eles dormem todos nas boleias dos caminhões que
dirigem ou será que por não existirem locais de repouso, como afirmam os
dirigentes do movimento, eles nunca param para descansar? Sendo justa,
como é, a reivindicação de que sejam construídas mais áreas e
estabelecimentos de lazer e repouso ao longo das estradas, não deveria o
movimento dos caminhoneiros autônomos estar reivindicando a imediata
construção destas áreas e estabelecimentos ao invés de propor que a
jornada de trabalho não seja diminuída e nem seja regulamentada? A quem
caberia, por fim, a responsabilidade de construir e manter estas áreas e
estes estabelecimentos, ao governo, às empresas ou aos próprios
sindicatos dos caminhoneiros?
É sempre bom recordar que argumentos parecidos com os que estão sendo
brandidos agora foram utilizados pelos proprietários de empresas
contrários à instituição da jornada de trabalho de oito horas diárias,
ainda no século XIX e no início do XX. Os patrões insistiam que não
poderiam diminuir a jornada de trabalho porque os produtos ficariam
muito mais caros, os seus lucros diminuiriam, haveria demissões em massa
e aumento do desemprego e, finalmente, que os trabalhadores ociosos
fariam arruaças e vandalismos durante os períodos de descanso!
Antes de insuflar uma greve que causa enormes transtornos ao conjunto
da população e aos próprios integrantes da categoria que a faz, seria
oportuno que as lideranças da paralisação refletissem sobre os reais
interesses que estão defendendo e, ainda, que cada um dos motoristas
autônomos se questionasse sobre quem se beneficiará, de fato, com os
resultados desta greve. Ao que tudo indica, não serão os trabalhadores
nem a maioria da população os que obterão os maiores benefícios.

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