31 de jul. de 2012

OPINIÃO: Greve dos caminhoneiros autônomos

"Os proprietários das empresas de transporte de carga agradecem (...). Se a greve obtiver sucesso, eles continuarão superexplorando os motoristas autônomos, impondo-lhes, não apenas o pagamento de baixos valores pelos fretes, mas, ainda, exigindo que eles se submetam a jornadas de trabalho absurdas." 

Nota do Blog: Quando lemos o editorial que reproduzimos abaixo, foi impossível não relacionar a uma entrevista de hoje, no Jornal Nacional, dada por um empresário do ramo de transportes local, falando a favor da greve como se fosse um "peão" do transporte.

Motoristas de caminhão: Escravos Modernos ?


(Editorial do Jornal Sul 21)
A greve dos caminhoneiros, deflagrada na quarta feira (25) e que já diminuiu um cerca de 40% o abastecimento de mercadorias em todo o país, é uma greve emblemática. Realizada como forma de pressionar o governo para retirar a proposta de regulamentação da atividade dos caminhoneiros autônomos, aprovada em 1997 e que agora entra em vigor, a greve atual é um caso exemplar de como um movimento de trabalhadores pode, se conduzido por lideranças hábeis e ao mesmo tempo tendenciosas, se contrapor aos interesses da própria categoria e do conjunto da sociedade.


Contando com a adesão de 80% dos caminhoneiros autônomos, segundo o comando do Movimento Brasil Caminhoneiro, que deflagrou a greve e a dirige, os motivos da paralisação são a instituição do cartão-frete, para o pagamento dos serviços realizados, e a obrigatoriedade do respeito a uma jornada diária de trabalho de, no máximo 13 horas, com paradas de 30 minutos a cada quatro horas e um repouso de 11 horas até o início da jornada seguinte.

A liderança do movimento afirma que o cartão-frete impedirá que os motoristas autônomos recebam pagamento em dinheiro pelo trabalho realizado e que eles não terão onde repousar durante os 30 minutos de descanso obrigatório e nem durante as 11 horas de intervalo de jornada, já que não foram construídos abrigos e áreas de lazer ao longo das rodovias. A se crer no que afirmam as lideranças, os motoristas autônomos preferem correr os riscos de serem assaltados e roubados das quantias que recebem como pagamento de cada frete que realizam e preferem, ao mesmo tempo, continuar trabalhando 12, 14, 20, 24 ou mais horas seguidas, sem descanso regular até que hospedarias e centros de lazer sejam construídos para recebê-los.

Os proprietários das empresas de transporte de carga agradecem. Se a greve obtiver sucesso, eles continuarão podendo sonegar os valores pagos pelos fretes, pois continuará existindo o mesmo sistema falho de controle fiscal dos pagamentos efetivamente realizados. Se a greve obtiver sucesso, eles continuarão superexplorando os motoristas autônomos, impondo-lhes, não apenas o pagamento de baixos valores pelos fretes, mas, ainda, exigindo que eles se submetam a jornadas de trabalho absurdas. Suas empresas continuarão, com isto, obtendo lucros crescentes, mesmo que, para isto, tenham que submeter os motoristas autônomos e todos os que trafegam pelas rodovias brasileiras aos riscos de acidentes provocados por condutores insones e exaustos.

Onde repousam hoje os motoristas autônomos quando param? Será cabível se imaginar que todos eles dormem todos nas boleias dos caminhões que dirigem ou será que por não existirem locais de repouso, como afirmam os dirigentes do movimento, eles nunca param para descansar? Sendo justa, como é, a reivindicação de que sejam construídas mais áreas e estabelecimentos de lazer e repouso ao longo das estradas, não deveria o movimento dos caminhoneiros autônomos estar reivindicando a imediata construção destas áreas e estabelecimentos ao invés de propor que a jornada de trabalho não seja diminuída e nem seja regulamentada? A quem caberia, por fim, a responsabilidade de construir e manter estas áreas e estes estabelecimentos, ao governo, às empresas ou aos próprios sindicatos dos caminhoneiros?

É sempre bom recordar que argumentos parecidos com os que estão sendo brandidos agora foram utilizados pelos proprietários de empresas contrários à instituição da jornada de trabalho de oito horas diárias, ainda no século XIX e no início do XX. Os patrões insistiam que não poderiam diminuir a jornada de trabalho porque os produtos ficariam muito mais caros, os seus lucros diminuiriam, haveria demissões em massa e aumento do desemprego e, finalmente, que os trabalhadores ociosos fariam arruaças e vandalismos durante os períodos de descanso!

Antes de insuflar uma greve que causa enormes transtornos ao conjunto da população e aos próprios integrantes da categoria que a faz, seria oportuno que as lideranças da paralisação refletissem sobre os reais interesses que estão defendendo e, ainda, que cada um dos motoristas autônomos se questionasse sobre quem se beneficiará, de fato, com os resultados desta greve. Ao que tudo indica, não serão os trabalhadores nem a maioria da população os que obterão os maiores benefícios.

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